terça-feira, 26 de junho de 2018

O crime da névoa

Fonte: https://www.pixcove.com/walkers-hikers-fall-fog-mist-autumn-moor-man-gentleman-back-light-mood-atmosphere-tree-disposition-landscape/



O despertador rompeu às 5 horas em uma manhã incomum e excessivamente alva. Daniel, sentiu uma névoa tímida entrar pela janela acompanhada de um vento frio. Arrumou-se rapidamente, tomando um café requentado com uma broa que sobrara do dia anterior. Saiu para o trabalho com o mau humor habitual da velha manhã, percorrendo a extensa rua para pegar o ônibus da firma.
Entretanto, algo estava diferente. Uma névoa densa era a protagonista da manhã gélida daquela quinta-feira fatídica. Não tinha como enxergar muita coisa a não ser um pedaço de chão que surgia em seus passos lentos e cautelosos. Já se afastara cerca de 100 metros do prédio e se sentia um estrangeiro na própria rua. Mantinha o caminhar vagaroso imaginando a impossibilidade da chegada do ônibus dentro daquela vasta brancura que imperava no nascer do dia.
- Vai passar logo, pensou.
Manteve o passo em ritmo lento até sentir o sapato pisando em uma poça com um líquido viscoso e escuro. Parou e se aproximou do líquido. Percebeu que olhando de mais perto a cor vermelha se revelava. Era sangue. Será de algum animal morto?
Andou mais um pouco e viu uma mão feminina e jovial, com uma pulseira de ouro e uma aliança de compromisso prateada, típica dos namoros adolescentes. Foi o primeiro contato com o corpo que se revelava brutalmente ferido. Era uma jovem que jazia com uma expressão de tranquilidade, mas com olhos abertos num contraste que transmitia pavor. Vítima de atropelamento? Não. Um corte profundo na jugular revelava o homicídio. Tocou o sangue e sentiu que o líquido ainda estava quente. O assassino poderia estar próximo.
O que fazer? A névoa era implacável. Ouviu passos. Começou a suar. Para onde correr? Em qual direção poderia se afastar do assassino? Permaneceu imóvel, mas o barulho dos passos só aumentava. Mais alto, mais alto, agora o indivíduo já estava correndo. Ele me vê?! Pensou.
Começou a correr num frenesi alucinante de volta para o apartamento. Tudo era branco. Uma cortina de fumaça o impedia de enxergar e perdeu o sentido de direção. Adentrou uma pequena mata próxima ao prédio repleta de desníveis perigosos. Os passos de seu oponente permaneciam. Parecia uma marcha militar. Só ouvia passos. Corria e trombava com galhos e uma árvore seca, que só enxergava do alto do prédio. Nunca tão próximo. Corria e se machucava naquela área de preservação ambiental que agora lhe servia como refúgio e incerteza.
Escondeu-se atrás da árvore aguardando que a névoa se dissipasse. Tentou fazer o mais absoluto silêncio, mas sua respiração ofegante o acusava. Os passos cessaram. O que tramava seu caçador? Ele ao menos era a caça? Aos poucos sua respiração normalizou e apenas o vento era sentido, os galhos se mexiam timidamente, pássaros voavam e Daniel podia sentir o bater das asas.
Olhou ao seu redor e sentiu-se cego. Tudo que enxergava era um branco intenso como se estivesse dentro de uma nuvem. O assassino não poderia encontrá-lo. A cortina nebulosa também se manifestava para o outro. A sensação de estar a poucos metros de um assassino e sua vítima o aterrorizava. Permaneceu meia hora paralisado, sem dar um pio e observando a natureza. Os 30 minutos mais longos de sua vida e a névoa resistia. Decidiu agir. Pegou uma pedra e a fez de arma. Queria impor um obstáculo ao assassino.
Caminhou lentamente para a entrada do prédio. Cada passo era calculado. O mínimo de barulho era preciso. Se pudesse rastejava naquele momento. Saiu completamente da mata e já estava no asfalto. Segurou firme a pedra e se sentisse a presença de qualquer um lançaria o objeto em autodefesa.
Conseguiu ver a fachada e o portão de entrada. Estava próximo da salvação. Pegou a chave e não resistiu nos metros finais. Correu muito, chegou no portão, inseriu a chave forçando a abertura. Um clique e abriu. Se jogou para dentro do prédio após bater o portão com toda a força.
Estava salvo. Aliviado. Vivo. Levantou-se tremendo de adrenalina e foi para o elevador. Apertou o 7º e subiu. Pensava na dor da morte. Qual a sensação de uma faca entrando nas estranhas e dilacerando seus órgãos? Atingindo os ossos e músculos, fazendo uma bagunça interna e sangrenta no corpo. E a dor? Seria breve ou demorada?
Chegou no apartamento. Abriu a porta e entrou. Percebeu uma velha e horripilante companhia. A névoa também estava lá a sua espera. Entrara timidamente pela janela e agora estava por toda parte. Daniel tentou sair para o hall, mas a porta não se abriu. Tudo era branco novamente, até no seu refúgio. Foi até o sofá e sentiu que a névoa queria sua alma. Sentou-se confortavelmente e sentiu uma dor dilacerante que nunca havia sentido e logo o fim. Morreu com uma expressão de tranquilidade, mas com olhos abertos num contraste que transmitia pavor.

FiM.

sábado, 17 de março de 2018

Aquele moralismo forçado que mais parece fascismo


Imagem/fonte: https://www.maskparty.co.uk/pair-of-whitecream-tragedycomedy-masks--choice-of--headbands-or-ribbons-574-p.asp


Retorno para falar de um tema que estou pronto para ser criticado pelos “cidadãos de bem”. Peço aos leitores desculpas pela ausência, mas estive um tempo anestesiado observando o comportamento de certas pessoas nas redes sociais. Alguns amigos de longa data, outros simplesmente colegas no meu facebook, emitindo toda sua voracidade de falso moralismo repleto de ódio ao próximo. Colocaram as mangas de fora em prol de uma "sociedade livre de todos os males do mundo". Só esqueceram da autocrítica.

As redes sociais deram voz aos pseudomoralistas que entre quatro paredes, no conforto do próprio lar destilavam seu preconceito na frente das esposas, maridos e dos filhos, até mesmo ao lado de um colega vizinho sem prestar atenção nas abominações que regurgitavam. O resultado foi proliferar e colocar no mundo mais do mesmo. Gerações deploráveis que defendem até mesmo a ditadura, usando o Iphone 8 nas redes sociais, no intervalo entre um jogo no Playstation e um seriado na Netflix.


Essa gente ainda não viveu o mundo. Ganhou o mundo de mãos beijadas e agora estamos vivendo o ódio às classes financeiramente inferiores, aos que pensam diferente, por jovens que ainda não possuem pelos na face e adultos intolerantes. A indignação vem segmentada no século XXI. Abominamos tal partido e os outros são normais. Fechamos os olhos para as falcatruas de determinadas figuras. Que bela democracia!

O tipo de pessoa que vira o rosto para os gastos e benefícios exorbitantes e mais do que excessivos no judiciário e legislativo, e esbraveja contra o bolsa família deveria ser estudada por um alienígena mais evoluído. Ainda sonho com a vinda de um extraterrestre mais evoluído e talvez espiritualizado, que irá abduzir certas espécies de seres humanos para estudar como o indivíduo bípede caminha para trás.

Quando penso neste “cidadão de bem” e seu desejo por uma arma carregada caminhando pelas ruas como um Clint Eastwood nos filmes de Western, doido para descarregá-la em alguém, imagino que deve ser uma pessoa com desejos enrustidos, mas no fundo não passa de uma pobre alma que talvez não conseguiu nenhum afeto em sua existência. Ele quer tanto fazer justiça com as próprias mãos que ignorou certas instituições que fazem parte da segurança pública. Mas, querer que tudo funcione é difícil. Principalmente em um país como o Brasil que teve seus investimentos em educação e saúde reduzidos. A balança não equilibra dessa forma. É querer demais do povo.

Do jeito que as coisas vão, penso que existam pessoas que um dia irão reivindicar nas redes sociais o retorno da escravidão institucionalizada. Ela já existe, mas ainda tem que ser realizada por baixo dos panos. Para certos “intelectuais” só falta legalizar. Não vou me surpreender com um projeto desses na Câmara dos ratos. Virá com outro nome, talvez Neo sei lá das quantas, acompanhado de um tal Estado Mínimo, seguido de certas reformas que irão "ajudar o país a se reerguer". O pior é ver os maiores defensores desse tipo de abertura virarem candidatos de partidos. Querem mamar nas tetas da nação do mesmo jeito. 

Agora assassinaram uma vereadora, que lutava por um país melhor. O que dizer? Muita coisa! Mas, muita coisa mesmo! Que essa imagem seja exibida e reexibida por muitos e muitos anos, nas redes sociais. Que façam um especial que conserve a memória de Marielle, que levou cinco tiros em um cenário que se constituiu absurdamente. Você está incomodado com isso? Pois, se depender de todos os humanos, que são de fato humanos, ficará muito mais incomodado. E quando seu incômodo estiver extremamente desagradável, lhe sufocando, olhe para o crucifixo que o leva a igreja todos os sábados ou domingos e pense no homem que está na cruz, ainda chorando pelos absurdos que acontecem neste país, assombrado e gerenciado por corruptos. Talvez em algum momento você se envergonhe e chore pelas monstruosidades que compartilha. 

Um Presidente Americano certa vez, foi morto da mesma forma. A sociedade na época se indignou. Agora com a morte de Marielle muitos dizem no conforto de suas residências e escondidos atrás de um notebook, que há certo exagero. Duas figuras públicas que sangram vermelho. Existe diferença? Não era para ter, mas infelizmente, neste mundo tão preconceituoso e desigual, sim. 

Em uma metáfora importante debatida no texto de Georges Didi-Huberman, “Sobrevivência dos Vagalumes”, vemos que ainda existem seres de fato humanos que tentam trazer certa luz no meio de um horizonte de trevas. Esses seres se indignam com as soluções vazias e instantâneas tão difundidas neste momento soturno com os holofotes da ignorância. Há dias que preferem se calar diante da proliferação de mensagens e sentimentos tão negativos. Mas, se reerguem e continuam se manifestando como se tivessem a missão de levar conhecimento e paz aos ambientes. Que os vagalumes se multipliquem e forneçam em seus lampejos de luz a chama da esperança de um mundo mais humano. Mais Cristão.


domingo, 7 de janeiro de 2018

Sobre não ter uma vida vazia em 2018...


O ano de 2018 começou e aquela sensação que poderia ser, de fato, um ano de mudanças importantes fica cada vez mais no campo ideológico da utopia. A Copa do Mundo definitivamente será mais importante que as Eleições. E por que? A resposta já está na mídia e na boca de todos. O mais importante será os gols de Neymar, a narração entusiasmada de Galvão Bueno e a esperança de termos algo tão relevante conquistado para o país: a taça do Hexa. Já estou vendo a chamada da Rede Globo.

Esqueçamos o alto preço do combustível, as verbas cada vez mais escassas para a Educação, a Reforma da Previdência, as malas de dinheiro, a precariedade da saúde, o desemprego, pois o importante é concentrar nos jogos da Copa do Mundo e na consagração do craque Neymar. Se ele não ganhar a Bola de Ouro de melhor do Mundo da Fifa será péssimo para todos os brasileiros. E eu já estou vendo a indignação na cara das pessoas, as conversas calorosas nos bares e talvez até protestos no país, caso o Hexa não aconteça. Será uma vergonha.
Afinal, sete jogos valem mais do que quatro anos. Não importa a fome se eu posso dizer que sou Hexa, não importa o desemprego se eu sou Hexa, pouco importa a escolarização do meu filho se eu posso bater no peito com orgulho e dizer: Eu sou Hexa Campeão!

A Copa do Mundo até educa. Algumas pessoas nem mesmo sabiam o que significava a palavra Hexa e agora já sabem que se refere a tão sonhada sexta conquista da Copa. Fomos capazes de aprender também o que era Tetra e Penta. Palavras importantes incorporadas ao vocabulário da nação. Em qualquer lugar as pessoas sabem o que significa graças a Romário e Ronaldo, grandes professores do país, ajudados pelo também mestre da voz Galvão Bueno, que já deve estar preparando suas amídalas para imprimir emoção em suas narrações.

A Copa é tão sagrada que até algumas empresas param suas atividades para os colaboradores assistirem aos jogos. Neste momento me veio a expressão Pão e Circo na cabeça, mas não sei o motivo.

Enfim, hora de pintar o rosto e vibrar de verde e amarelo, correr pelas ruas com bandeiras, ser patriótico e postar no Instagram a melhor foto de centenas tiradas porque isso é de extrema relevância.

O mês de julho sempre será mais importante que outubro e Ai de você se não vibrar. Tente se esconder e vai achar um verdadeiro desafio. Poderão até dizer que você não é patriota. E não pense no futuro. Viva os jogos como se não houvesse o amanhã. É assim que o Sistema quer. É assim que será.

Talvez em novembro ou janeiro de 2019 com os representantes eleitos e as novas promessas que serão descartadas você se dê conta que apostou no evento errado. Talvez seja a cervejinha mais cara que você vai tomar durante os jogos. Mas, após quatro anos já haverá outra Copa para lhe deixar mais iludido e ensinar talvez uma nova palavrinha para o seu rico vocabulário.  
Que comecem os jogos...



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O suicídio, o imperceptível e uma retrospectiva pouco ortodoxa

George Frederic Watts - Descrença e esperança


Há um tempo não escrevo, mas tentei compilar algumas coisas importantes neste texto de fim de ano.

Dezembro chegou e mais um ano se finda. Tempo de olhar para trás e fazer um balanço do que foi 2017. Tentar entender o que fizemos de nossa vida. Acredito no misticismo de fim de ano, pois se encerra um ciclo e outro se inicia. É um chover no molhado necessário, pois essa passagem de ano significa que podemos recomeçar de uma forma melhor. Alguns devem tentar melhorar em vários níveis, outros apenas corrigir algumas coisas que não saíram bem. É uma reflexão do indivíduo consigo mesmo. Há aqueles que olham para trás com um misto de vergonha e tristeza e existem os que se orgulham da aventura que fizeram.

O fato é que ainda estamos respirando e o jogo recomeça. E a maioria quer jogar, ninguém quer ficar de fora. Participar e crescer, ter perspectivas de futuro, estudar, debater, atuar no mercado de trabalho, ter laços sociais mútuos e satisfatórios são fatores importantíssimos nesta jornada. É claro que isso não se conquista de um dia para o outro e sempre haverá percalços no caminho.

Émile Durkheim, célebre sociólogo francês, em sua famosa obra “O suicídio”, explica que a abreviação da vida se constitui em um fato social, diferentemente do que todos pensam, ser um ato íntimo. Durkheim explica que o indivíduo suicida é uma pessoa que considera sua existência um fato insuportável e as variáveis sociais são os principais fatores desta atitude. A força e a fragilidade dos laços sociais são determinantes neste processo. E quando Durkheim fala de laços sociais esses laços se estendem ao lado pessoal, profissional, crenças religiosas etc. O fato é que o autor possui dois centros de estudos em sua homenagem: um na Suécia e outro no Japão. Dois lugares com altos índices de suicídio. Pelo nome dos países dá para perceber que o Suicídio não tem relação com a pobreza. A ligação é muito mais profunda e diz respeito a uma sensação particular de isolamento e de solidão. Não ter o que dizer sobre si. Muito mais entristecedor do que ser o segundo lugar, muito mais entristecedor do que ser derrotado em inúmeras competições é estar excluído da sociedade, pois não jogar jogo nenhum é não existir na sociedade. Portanto, o suicídio é uma questão social.

Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar falando isso neste texto de fim de ano?

Explico: A taxa de suicídios aumentou 12% nos últimos quatros anos. O número de pessoas depressivas aumenta a cada ano. A indústria farmacêutica vende milhões e milhões de remédios, pois a sociedade de consumo que nós vivemos tem fome de alimentar o seu ritmo alucinante. Todos querem jogar, todos querem ser felizes, todos querem mostrar que são capazes. Mas, neste mundo, infelizmente, não há lugar para todos.

Existe uma gama significativa da sociedade que alimenta um sistema cada vez mais desigual. Pessoas que vivem em ilhas isoladas (condomínios de luxo, bairros elitistas) e que querem distância de outras realidades. Indivíduos que possuem opiniões baseadas em superficialidades e estereótipos criados pela mídia, transformados em dogmas inquestionáveis. E neste processo algumas pessoas estão isoladas e depressivas. E algumas não possuem o devido apoio ou acompanhamento. Jovens, executivos, profissionais liberais, várias classes passando por tormentos imperceptíveis aos olhos dos outros. Os casos da “baleia azul” são apenas alguns exemplos.

Há filósofos e pensadores debatendo tudo isso e questionando a que ponto chegamos. Auditórios lotados de pessoas querendo alguma explicação para tamanha angústia e ansiedade. A Ética é um assunto muito debatido no momento porque há uma grande parcela da sociedade buscando evoluir e olhar às suas próprias falhas. Isso é o lado bom e representa coisas muito importantes para essa nova era. Representa indivíduos mais preocupados com o coletivo.   

A lógica do novo século está passando por uma metamorfose similar a uma furunculose. A infecção está saindo e vindo à tona no estrebuchar dos corruptos, dos falsos moralistas, conservadores hipócritas, pseudo-religiosos etc. Ainda estamos vivendo no século XX apesar de estarmos no século XXI. A lógica de produção sem limites está sendo repensada pouco a pouco na sustentabilidade outrora utópica. Mas as pessoas estão buscando mais informações e elas estão por aí, basta direção.


Essa nova geração de pessoas antenadas, independente da idade, é uma esperança de um 2018 melhor. Mesmo que vários indicadores preveem um cenário caótico, com intolerâncias ideológicas, as pessoas que se informam e querem mudanças em vários aspectos serão o bálsamo deste país. Ou se tudo der errado, uma esperança para seguir em frente. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O racismo de William Waack é apenas a ponta do iceberg de uma sociedade doente



A divulgação do vídeo em que o jornalista e apresentador do Jornal da Globo exerce um ato de preconceito contra os negros é apenas o fato inicial para o que vou abordar neste texto. Somente a ponta do Iceberg.
O preconceito, a intolerância e os atos de totalitarismo estão ganhando cada vez mais espaço na internet e nos diversos meios de comunicação. Alguns destes atos remetem a uma época medieval.
Fico imaginando o que passou na cabeça do jornalista Heraldo Pereira, companheiro de trabalho de William Waack no telejornal. Certamente deve ter ficado profundamente decepcionado com o colega que demonstrou total desrespeito pelos negros.
O desprezo por determinadas classes se transformou em algo recorrente para apresentadores de telejornal. Não devemos esquecer do dia em que Boris Casoy destilou seu desprezo pelos garis em plena bancada de seu telejornal. Se você não viu, a internet está aí para lembrar este triste episódio.
Pensei em expor as infelizes frases emitidas pelos dois jornalistas aqui neste texto, mas após uma reflexão e por respeito à dignidade de todas as pessoas decidi não fazer isso.
As máscaras um dia caem, pois ninguém pode sustentar a falsidade o tempo todo. Foi o que aconteceu com os dois citados neste texto. O que me deixou ainda mais pasmo, foi ler alguns comentários nas reportagens sobre o ocorrido. Mais uma vez eu percebi o quanto a sociedade está doente e tive a sensação de estar vivendo na Idade Média.
Associaram o racismo de William Waack ao fator político e disseram coisas partidárias que não tinham absolutamente nenhuma relação com o episódio. Alguns disseram que isso é normal e que existe muito MIMIMI da sociedade e voltaram a xingar um ou outro partido.
Fica parecendo que se uma figura pública é simpática a uma causa defendida por eles, tudo bem. O crime deve passar despercebido, ocultado.

INTOLERÂNCIA

O que dizer do retorno das tochas, nas manifestações em São Paulo contra a filósofa Judith Butler que veio falar sobre democracia? Manifestantes contrários repetiram atos da Idade Média e queriam que a filósofa não discursasse porque ela defende e estuda a teoria de gêneros. Tudo isso ocorreu, sendo que ela nem iria falar deste assunto. Mesmo que falasse, a intolerância com opiniões contrárias está chegando ao fanatismo.
Olho para o final do ano de 2017 e vejo um céu nublado. E se as coisas não melhorarem teremos relâmpagos, tsunamis e furacões de ódio em 2018. Enquanto alguns possuem máscaras, outros já não se importam com nada e demonstram desrespeito ao próximo com olhos de rancor. As duas coisas são péssimas.

Alguns levantam a bandeira da boa família, mas me pergunto se estes valores que pregam realmente estão sendo aplicados na prática. Lembro de Rubem Alves questionando aqueles que falam o tempo todo de Deus, mas esquecem de viver Deus. 

Stefan 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Acordei em um mundo estranho


Acordei certa manhã e me encontrei em um mundo que não me pertence mais. Rodeado de pessoas arcaicas e hipócritas revestidas de uma ignorância singular. Pensei em mudar de país, mas notei que essa ignorância é característica inerente ao mundo nesta época peculiar onde ditadores disfarçados de bem feitores estão ganhando multidões e eleições.

Levantei e me deparei com a violência sem precedentes, a ganância prevalecendo sobre o amor e as rajadas de balas sobre a multidão. Caminhei e presenciei um ser humano acabar com a vida de crianças lançando fogo sobre o álcool e multiplicando o sofrimento de mães na porta de uma creche.
Seres inocentes morreram por um momento de insanidade e maldade. Não conhecemos mais ninguém. Tudo é tão obscuro, tão perverso que quando a máscara cai só resta as lágrimas e a expressão de horror naqueles que presenciam o ódio.

Tentei seguir em frente, mas os prognósticos futuros só mostram os alienados que querem apostar em falsos líderes que chamam de mitos. Incapazes de perceber a onda de ódio que está assolando o país.
Os focos verdadeiros não ganham a atenção devida. É preferível desviar a atenção e os debates para um museu e uma expressão de arte que é insignificante para o mal que toma conta do país como o aumento constante da desigualdade e da injustiça social, da fome, do desemprego, das filas nos hospitais, da falta de verba para a educação, da entrega da Amazônia, dos impostos abusivos, dos acordos de delação que mais parecem férias remuneradas nas Bahamas.
 ´
O mundo está doente e a enfermidade maior se chama ignorância e o sintoma maior se chama passividade. Nada surpreende mais porque pagaremos a conta sem questionar no final. Mais um imposto é como mais uma droga para quem está entorpecido com tanta substância letal.
Querem permitir que o Brasil se transforme em terreno da mesma extrema-direita que assombrou Charlottesville na Virgínia, com tochas contra negros, gays, imigrantes e judeus. Totalitaristas e poder é uma combinação mais perigosa que fogo e querosene. Já estão falando em censuras até com shows de música. Querem retornar aos censores débeis, a intolerância, ao abuso de poder e exílio dos que resistem. Querem dar vivas ao retorno da ditadura.  

A hipocrisia disfarçada de religião ganhou seu ápice nos representantes da “boa família” que estão no Congresso. Os mesmos que insistem em propagar as curas para certos grupos, mas incapazes de olhar as traves e traves nos próprios olhos que insistem em julgar os outros. A Bíblia nas mãos destes farsantes ganhou traduções perversas. Como no Livro de Eli, aquele que detém o poder do livro controla massas. Este era o lema do vilão. E a grande lição de Jesus Cristo foi que amássemos o próximo. Entenderam errado.  


Cenários obscuros se instalaram em um caos de raízes profundas que parecem não ter limites. Não há o que dizer sobre o futuro, pois a energia está fixada no negativo há tempos. Pessimismo é mato diante destas transgressões. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Por que criança esperança e não criança alegria?



Começo este texto como uma pergunta provocada pelo Prof. Dr. Clovis de Barros Filho. Por que a filosofia materialista de Nietzche, Spinoza, Lucrécio, enquanto mestres espirituais é contra a Esperança? Resposta: Porque no final das contas consideram a Esperança uma vida triste.
Porque o slogan Criança Esperança é tão emblemático para o senso comum e nada importante para a Filosofia?
Primeiramente, porque esperança não é alegria, pelo contrário, esperança é o que falta. Esperança é o desejo. É como esperar um ônibus que não chega. É como ter um sonho que não se concretiza.
Esperança é um projeto no Brasil. Como somente uma pequena parcela da população é contemplada devido a imensa desigualdade social, o slogan Criança Esperança se encaixa perfeitamente. Do contrário, seria Criança Alegria. Nem todos podem ter uma educação de qualidade neste país. Nem todos podem planejar o futuro. O Brasil, 5º país em Economia e 153º em distribuição de renda nos mostra esta triste realidade. Alimentar a pobreza é um projeto, é um folclore que fica bonito na mídia. Sempre haverá suecos e americanos visitando favelas para mostrar o avesso do mundo aos seus conterrâneos e sair bem na foto com qualidade ISO 9000 e responsabilidade social nota 10. E o Renato Aragão vai surgir fazendo um discurso emocionado e continuando a alimentar o sistema.
E assim podemos aplicar a Esperança em vários setores da sociedade: Educação Esperança, Transporte Esperança, Saúde Esperança, Honestidade Esperança e assim caminha a humanidade. Para onde, não sei.  
Mudando de assunto:
Há alguns dias fiquei perplexo com a violência de um aluno contra uma professora. As fotos do olho inchado, sangue no chão e o rosto de perplexidade da professora me deixaram profundamente triste com a situação. Aquela agressão foi em todos nós profissionais da Educação. É preciso repensar os valores, pois esta situação não pode permanecer. A nova geração que está aí deve olhar para as outras gerações e compreender o significado de respeito.
O que mais me indignou foi alguns comentários envolvendo política e ódio contra a professora. Aplaudindo a atitude do aluno porque ela tinha tal posicionamento político. “A sociedade está doente”, me disse um amigo. Concordo com ele. Em algum ponto o freio chamado respeito deixou de funcionar.

Stefan Willian
Jornalista, escritor e professor
Autor do blog: https://prosafilosoficadehoje.blogspot.com.br/